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Case: percepções sobre inovação e posicionamento estratégico

Case: percepções sobre inovação e posicionamento estratégico

Conversei com a Andrea Janér, que é empreendedora digital, curadora, e cofundadora da Oxygen, um hub de conteúdo em inovação para transformar pessoas e empresas por meio do conhecimento.  Recentemente, a Oxygen lançou o Oxygen Club, clube digital de conteúdo por assinatura que apresenta tendências e discute o futuro por meio de aulas, webinars, mentorias, encontros online e newsletter de curadoria.

Antes da Oxygen, Andrea passou 22 anos fazendo projetos de estratégia de marca em grandes consultorias nacionais e globais, até que, apaixonada por inovação, transformou um perfil no Instagram no qual compartilhava sua curiosidade e interesse pelo assunto em um negócio que mescla conteúdo e educação. 

Levando em consideração o panorama mundial, somado ao cenário pós-Covid, quais são as diferenças do posicionamento estratégico sobre inovação verificadas no Brasil em comparação ao restante do mundo?

1. No Brasil, só agora o ecossistema de startups, peça fundamental no quebra-cabeça da inovação. começa a amadurecer. Temos iniciativas ainda tímidas em pólos como São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte e Recife, quase sempre atreladas a um sponsor, como Cubo e InovaBra. Com uma disponibilidade maior de seed money e o surgimento de fundos de VC mais estruturados, a esperança é que o país possa finalmente criar tecnologia própria e, eventualmente, servir outros mercados. Na França, por exemplo, existe a Station F; em Beijing, a Zhongguancun.

2. Outro fator que impede o desenvolvimento da inovação no Brasil é a falta de uma academia forte. Pouco investimento em pesquisa, educação básica defasada, ensino superior público em decadência. Sem a participação ativa desse setor, formando os jovens que vão desenvolver as soluções tecnológicas que podem transformar uma indústria, nunca vamos avançar. Um dos melhores exemplos disso é Israel, onde as universidades estão muito próximas do ecossistemas de startups, além do próprio Vale do Silício, que tem em seu território universidades como Stanford e Universidade da Califórnia em Berkeley, formando engenheiros, cientistas de dados, designers e desenvolvedores que estão por trás dos grandes progressos da humanidade.

3. Por fim, faltam programas de incentivo do governo para acelerar empresas, premiar soluções inovadoras e custear projetos de pesquisa - algo que é natural em países considerados inovadores como a Suécia, que reúne o maior número de unicórnios per capita do mundo.

Com relação ao Covid-19, acho que no Brasil não aproveitamos muito a "vantagem" de estarmos dois ou três meses atrás da China, da Europa e dos Estados Unidos na curva de contágio do coronavírus. Ou seja, bastava observar os acontecimentos nos outros países para entender o efeito que o coronavírus teria aqui. Mas mesmo assim cometemos muitos erros - e ainda estamos cometendo-, com o agravante de que aqui houve uma politização da doença, combinada a uma falta de liderança.

O brasileiro, porém, é reconhecido como um povo criativo e adaptável, então tivemos alguns exemplos de como se reinventar em um momento de isolamento social e escassez de recursos. Algumas marcas rapidamente ocuparam o espaço deixado pelo governo, que, como esperado demorou, para se mexer:

- Ambev: além de rapidamente ajustar suas operações fabris para a produção de álcool em gel, a marca teve uma resposta rápida ao organizar e patrocinar as célebres lives de cantores pop e sertanejos no YouTube, algumas com mais de 3 milhões de viewers simultâneos.

- XP: a plataforma de investimentos foi pioneira nas lives e zooms sobre o cenário da pandemia, trazendo CEOs e membros do governo para debater as consequências econômicas da crise. Seus conteúdos diários elevaram a barra do mercado e rapidamente os concorrentes embarcaram no formato. Em julho, a XP realizou o Expert, seu tradicional evento anual, desta vez 100% online, e chegou à impressionante marca de 5 milhões de inscritos - segundo eles, o maior evento de investimentos do mundo.

- Shoppings Iguatemi e Cidade Jardim: com as portas fechadas, o foco dos shoppings se tornou a produção de conteúdo. Ambos conseguiram manter lives, entrevistas, workshops e webinars diários sobre uma variedade de assuntos no universo de lifestyle, gerando uma programação intensa e que conseguiu manter suas comunidades conectadas, informadas e entretidas.

- Magalu: em maio, quando algumas lojas já estavam abertas, a varejista cresceu 46% em relação ao mesmo período do ano passado, com destaque para o segmento digital, que avançou 200% no período. O Magazine Luiza já vinha investindo no digital há muitos anos, mas na chegada da pandemia metade de sua receita ainda vinha das lojas físicas. A partir dali, foi preciso virar a chave. A empresa também criou o “​Parceiro Magalu​”, uma plataforma digital de vendas que está ajudando micro e pequenos varejistas e profissionais autônomos a manter seus negócios e já conta com mais de 30 mil usuários vendendo todos os dias e ganhando suas comissões.

- Restaurantes: seguiram a onda global e passaram a oferecer delivery como forma de sobrevivência. Nasceu durante a pandemia o CJ Food, um app para concorrer com Uber Eats e Rappi, criado pelo Grupo JHSF, que administra shoppings e empreendimentos de luxo, entre elas a marca Fasano. A ideia do novo app é fazer delivery de comidas sofisticadas, uma oportunidade que ainda não tinha sido aproveitada por ninguém no Brasil.

- Real Estate: aqui, novamente, o destaque ficou para a XP, que embarcou na onda do trabalho remoto indefinidamente e anunciou que sua matriz vai migrar para um grande campus que será construído no interior de São Paulo. Foi um movimento ousado e que causou polêmica na Faria Lima, centro financeiro da capital paulista (e do Brasil).

- ESG: no Brasil, o pilar social falou mais alto no tripé do ESG (Environmental, Social and Governance) durante a pandemia. Várias empresas se organizaram em coalizões que serviram para diversas iniciativas, como levantar fundos para ajudar as populações vulneráveis e comprar cestas básicas. De acordo com o Monitor das Doações Covid-19, o montante doado já está próximo de R$ 6,5 bilhões e a lista de doadores chega a 400 mil nomes, entre empresas e pessoas físicas - com destaque para o Banco Itaú, responsável sozinho por R$ 1 bilhão, doados por meio da Fundação Itaú Social.

- Saúde: a telemedicina foi regulamentada às pressas no início da pandemia, ainda que de forma provisória, e algumas empresas do setor passaram a oferecer este tipo de atendimento. Entre elas, scaleups como Dr. Consulta.

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